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Zé Maria

  • Nome Completo:José Maria Rodrigues Alves
  • Apelidos:Super Zé
  • Nascimento:18/05/1949
  • Jogos pelo Corinthians:598
  • Gols marcados:17
  • Conquistas pelo Corinthians:
    Paulista 1977, 1979, 1982, 1983

FICHA TÉCNICA

Nome: José Maria Rodrigues Alves
Nascimento: 18/05/1949 – Botucatu – SP
Posição: Lateral direito
Período em que jogou no Corinthians: 13 anos (de 1970 à 1983)
Jogos: 598
Gols: 17
Títulos: 4 Campeonatos Paulistas (19777982 e 83)

 

Muitos jogadores suaram a camisa corintiana. Zé Maria sangrou por ela.

No primeiro dos três jogos da decisão do Campeonato Paulista de 1979, disputado em fevereiro de 1980, contra a Ponte Preta, o Corinthians venceria por 1 a 0 e ganharia aquele título depois de mais dois jogos.

Mas, para o Super-Zé, todo jogo era como se fosse o último, sempre.

Sob a chuva fina que teimava em castigar o Morumbi, a Fiel, em silêncio, observava Zé Maria ser atendido embaixo
de uma das traves, com um corte profundo no supercílio.

Mas as bandagens teimavam em não se fixar, por causa do suor excessivo que lhe escorria pelo rosto, e a certa altura o médico do clube, Léo Vilarinho, teve de lhe dizer, baixinho: “Zé, o curativo não vai grudar”.

Imediatamente, o jogador respondeu: “Então, eu volto assim mesmo, doutor”. Quando retornou ao gramado, com a camisa toda empapada de sangue – algo ainda permitido pelas leis do jogo naquele tempo –, os 96.441 presentes resolveram aplaudi-lo de pé.

Logo depois, Zé acabaria sucumbindo à dor e à tontura, que o impediram de continuar jogando. A principal missão,
porém, de insuflar o ânimo da equipe naquele momento de decisão, já havia sido cumprida. Ao ser substituído, Zé Maria foi novamente e ainda mais aplaudido.

Nenhuma outra cena exemplifica melhor o que foram os 13 anos de excelentes serviços prestados por Zé Maria à
camisa alvinegra. No longo período de tempo entre 1970, quando chegou da Portuguesa, e 1983, quando resolveu
encerrar a carreira, ele foi a personificação da própria raça corintiana.

Espírito de luta, condição física, poder de recuperação.

Nada disso faltou, nunca, a Zé Maria nos 599 jogos que fazem dele o quarto colocado em número de participações
com a camisa corintiana.

José Maria Rodrigues Alves nasceu em uma quarta-feira, 18 de maio de 1949. Seus pais, Durvalino e Maura, eram
colonos da Fazenda Lageado, em Botucatu, cidade a 230 quilômetros de São Paulo. Foi lá que Zé passou toda a
infância, ajudando a família a carpir, tirar leite das vacas, cozinhar e, principalmente, vender os balaios com mudas
de café que eles mesmos produziam.

Começou a jogar futebol também em Botucatu, no infantil da Ferroviária local, sempre na lateral-direita, posição em que já jogava quando foi descoberto pelo técnico Édson Quadros. O ano era 1964, mas a bola esteve desde sempre no sangue da família.

O pai, Durvalino, havia jogado com o nome de Tunga na própria Ferroviária botucatuense e na Inter de Limeira.

Indicado por um diretor da Portuguesa que representava a Ferroviária de Botucatu em São Paulo, Zé Maria chegou para fazer testes no Canindé em uma terça-feira, 17 de janeiro de 1967.

Dois dias depois, Zé participava de seu primeiro treino. No dia 25, uma quarta-feira, à noite, já atuava pela
primeira vez, em um amistoso em Sorocaba contra o São Bento.

Tinha, então, apenas 17 anos, mas já começava a ser
visto como uma reedição de Djalma Santos – negro, forte, lateral-direito e da Portuguesa.

No ano seguinte, seu primeiro como profissional, Zé Maria já era lembrado para defender a Seleção em um amistoso contra a Polônia, em Varsóvia.

Vestiria a camisa amarela com a mesma dignidade em 66 jogos, durante dez anos. Na Copa de 1970, no México, Zé Maria sagrou-se tricampeão do mundo na condição de um resignado reserva do capitão Carlos Alberto Torres.

O futebol vigoroso, porém limpo, de Zé Maria sempre foi cobiçado por outros clubes, considerados maiores que a
Portuguesa.

Como o Vasco, que ele até chegou a defender, emprestado por um curtíssimo período de tempo, apenas
para a disputa da Taça Guanabara de 1968. Aquela, porém, era a única concessão que a Lusa faria, por considerá-lo
“patrimônio do clube”.

Zé Maria também chegou a ser procurado pelo Palmeiras, mas seu destino tinha de ser mesmo o Corinthians. “Um dia você ainda vai jogar lá”, profetizou seu pai, Durvalino.

Corintiano fanático, ele cuidava de todos os interesses financeiros do filho e teve papel fundamental na tumultuada transferência da Portuguesa para o Corinthians, naquele mesmo 1970 em que o Super-Zé havia sido campeão do mundo ainda como jogador da Lusa.

O contrato terminaria no dia 4 de março, mas o jogador, orientado pelo pai, não aceitava renová-lo.

Quando seu contrato venceu, Zé Maria estava a serviço da Seleção e chegou até a ser ameaçado por dirigentes lusos de não mais jogar em lugar nenhum caso não aceitasse permanecer no Canindé.

O advogado de Zé Maria, Gérsio Passadore, obrigou, então, a Portuguesa a fixar o preço de seu passe. Houve uma primeira pedida, de Cr$ 936.262,00, mas, quando ele foi campeão do mundo, o clube resolveu aumentá-la para Cr$ 1.724.578,00.

A então Confederação Brasileira de Desportos (CBD) decidiu que o preço que valia era o primeiro, mas a Portuguesa não gostou. Segundo a Lei do Passe então em vigência, a partir dali haveria um decréscimo de 10% ao mês.

Terminado o prazo de carência estipulado pela lei, Zé Maria apareceu na Federação Paulista de Futebol para adquirir seu próprio passe.

Obviamente, quem estava por trás de tudo, inclusive financiando a transação, era o Corinthians, time para o qual, logo a seguir, Zé Maria declarou haver repassado seu passe por 750 mil cruzeiros.

A Portuguesa ainda recorreria, e a batalha judicial só teria fim quando ela aceitou receber mais 200 mil cruzeiros do Corinthians a título de indenização. A longa novela arrastou-se por oito meses, nos quais o jogador apenas treinava.

Às 5 horas da tarde de uma sexta-feira, 6 de novembro de 1970, veio a notícia oficial: Zé Maria, finalmente, era do Corinthians. “Hoje é um dia feliz para mim. Estou vencendo uma briga difícil, comprando minha liberdade. Estou indo para o Corinthians, meu time desde menino”, declarava, radiante, o Super-Zé. Ainda mais radiante, porém, estava seu pai, Durvalino.

Na manhã do dia seguinte, um sábado, Zé Maria já se apresentava para fazer os exames médicos. Quatro dias
depois, em uma noite de quarta-feira, no estádio Olímpico, em Porto Alegre, estreava numa partida contra o Grêmio.

Com o número 2 às costas, ele chegava para fazer companhia a uma defesa de respeito, formada por Ado, ele,
Ditão, Luís Carlos e Pedrinho. Em 1973, em seu leito de morte, seu Durvalino fez o filho prometer que conquistaria
um título pelo Corinthians. Zé Maria teria essa oportunidade pouco mais de um ano depois. Mas ainda não foi aquela a hora de realizar o último desejo do pai e a maior aspiração de milhões de outros corintianos como ele.

Campeão pela última vez em 1954, sem a chance de brigar por uma taça em uma final desde 1957, o Corinthians, na qualidade de vencedor do primeiro turno, chegava à decisão do título paulista de 1974, exatas duas décadas depois de sua última conquista e contra o mesmo adversário, o Palmeiras. No primeiro jogo, no Pacaembu, um empate por 1 a 1. No segundo, no Morumbi, o gol solitário do palmeirense Ronaldo, marcado já no segundo tempo, acabou tirando a taça que todo corintiano mais queria.

No trajeto do estádio para a casa do zagueiro Brito, companheiro de Corinthians naquele 1974, Zé Maria não
falou com ninguém. “Naqueles dias, eu nem saía na rua, de tão envergonhado”, confessa. “Parece que aconteceu
ontem, mas até agora não sei o que houve com a gente.

Teria sido o excesso de responsabilidade? Olha, falam do Orelhinha (Rivellino), mas eu também fui uma droga. Me
abati e passei todo o ano de 1975 traumatizado. Queria abandonar o futebol, voltar para Botucatu, me esconder de
todo mundo.”

Mas tanto Zé Maria quanto o próprio Corinthians recobrariam a antiga confiança. Eram as semifinais do Brasileiro de 1976, e o time, embalado, levou 70 mil corintianos a invadir o Maracanã em um jogo de vida ou morte contra a Máquina do Fluminense, agora o time de Rivellino.

Debaixo de muita chuva, o Corinthians foi valente ao sustentar o empate por 1 a 1 diante de um adversário
tecnicamente superior. Depois, nos pênaltis, veio a passagem para a decisão do título, com ele, Zé Maria,
convertendo a última cobrança.

No domingo seguinte, em Porto Alegre, uma esperada derrota por 2 a 0 para o Inter de Figueroa, Falcão & Cia. deu fim ao sonho do primeiro título nacional. Mas Zé Maria sabia que estava tudo pronto para o início de novos tempos, tanto para ele quanto para o Corinthians: “A gente começou a acreditar que podia”.

No inesquecível ano de 1977, o Corinthians pôde como nunca. E, naquela histórica final, Zé Maria teve que marcar
o próprio irmão, Tuta, camisa 11 da Ponte Preta.

Não só se desincumbiu muito bem da tarefa como ainda arranjou tempo para ir à frente, começar o lance que culminaria no gol da vitória há tanto prometida, marcado por Basílio aos 36 minutos e 48 segundos do segundo tempo. “Ganhei aquele lance meio no grito.

Quando fui cruzar, o Ângelo, da Ponte, levantou os braços. Eu pedi mão na bola e o juiz deu”, confessa o Super-Zé. Naquele momento, enquanto ajeitava a bola para a cobrança da falta, Zé Maria pensou: “É agora”.

Correndo para a área, o ponta-direita Vaguinho acenava, evocando o apelido de Zé entre os outros jogadores: “No primeiro pau, Bocão! ”.

A bola saiu de seu pé direito, raspou a cabeça de Basílio, foi chutada por Vaguinho, bateu na trave, voltou para Wladimir cabecear, foi rebatida em cima da linha pela cabeça do pontepretano Oscar, foi chutada de volta por Basílio e, finalmente, entrou.

Instantes depois, já sem a camisa, tomada pela torcida ensandecida que invadiu o gramado, José Maria Rodrigues
Alves tornava-se o primeiro capitão desde Cláudio Christóvam de Pinho, no já longínquo 1954, a erguer uma
taça de campeão pelo Corinthians.

Um momento tão inesquecível que, 30 anos depois, Zé Maria não teve a
menor dúvida em afirmar: “Aquela conquista valeu mais para mim que o tricampeonato do mundo, em 1970”.

Os últimos seis anos de Zé Maria no Parque São Jorge foram extremamente felizes, principalmente se comparados
com os sete anteriores. A mesma contusão que o afastou de sua terceira Copa do Mundo, em 1978, também o deixou
fora do Corinthians por quatro meses.

Quando voltou a jogar, já no final daquele mesmo ano, passou a ser muito mais uma reserva moral do que o titular absoluto da posição. Continuou emprestando dignidade à camisa 2 alvinegra até que surgisse um substituto à sua altura.

Na conquista do Paulista de 1979, revezou-se com o jovem Luís Cláudio.

No bi da Democracia Corintiana, em 1982/83, o titular era Alfinete, promessa vinda do XV de Jaú, mas o velho Super-Zé ainda continuava por lá.

Tanto que nos 3 a 1 sobre o São Paulo que deram o título de 1982, quando ele entrou em campo para jogar os últimos minutos no lugar do próprio Alfinete, o estádio quase veio abaixo.

Em março de 1983, às vésperas de completar 34 anos, Zé Maria acumulava duas funções para as quais havia sido
democraticamente eleito.

Uma era a de vereador de São Paulo, pelo PMDB, com 33 mil votos. A outra, a de técnico do Corinthians, escolhido pelos próprios companheiros de Democracia Corintiana após a saída de Mário Travaglini.

O Zé jogador ainda voltaria a campo para algumas partidas de showball nos Estados Unidos e para defender a Inter de Limeira no início de 1984, outra promessa feita ao pai.

E até hoje mexe com futebol, em um trabalho social e esportivo com os menores infratores da Fundação Casa, a antiga Febem. As últimas impressões que ficaram de Zé Maria, no entanto, só poderiam ser as corintianas.

Em um sábado, 10 de setembro de 1983, ele jogou seus últimos minutos substituindo Alfinete durante o empate por 0 a 0 com o Santo André, no Estádio Bruno José Daniel. Em um domingo, 25 de setembro daquele mesmo ano, fez sua despedida oficial.

Dessa vez, não jogou, apenas deu uma volta olímpica pouco antes de um clássico contra o Palmeiras.

Naquela tarde, em reconhecimento a tudo que representou para o Corinthians e para o próprio futebol, Zé Maria chegou a ser aplaudido até pelos palmeirenses.

Terminado o jogo, enquanto os torcedores tentavam arrancar-lhe a camisa, Zé Maria lamentava: “Estão tirando um pedaço de mim”.

Nas arquibancadas, naquele mesmo instante, cada corintiano sentia exatamente a mesma coisa.

 

Timão Interior